A publicação da RDC 665/2022 não foi apenas uma atualização burocrática da antiga RDC 16/2013; foi um movimento estratégico de harmonização com o cenário global, visando alinhar o Brasil aos requisitos do MDSAP (Medical Device Single Audit Program) e ISO 13485. À primeira vista, a matriz de correlação entre a norma brasileira e a ISO 13485:2016 sugere um espelho quase perfeito.
No entanto, para o Gestor da Qualidade e Assuntos Regulatórios, o perigo mora justamente na semelhança. Acreditar que a certificação ISO 13485 garante conformidade automática com a ANVISA é um erro comum que resulta em não conformidades severas. É preciso dominar a "tropicalização" dos requisitos, observando normas e requisitos importantes no Brasil.

Enquanto a ISO 13485:2016 (Cláusula 7.1) remete à ISO 14971 para a gestão de riscos, a RDC 665/2022 internaliza essa obrigação no corpo da norma (Artigos 18 a 20).
• Ponto Crítico: A ANVISA exige que o gerenciamento de risco seja um processo contínuo e vivo, conectado diretamente ao pós-mercado (Tecnovigilância). Não basta ter o arquivo de risco do projeto; o auditor buscará evidências de que reclamações de mercado brasileiras retroalimentaram a análise de risco original. Se o seu SGQ global não tiver o desdobramento correto e específico para o requerimento Brasileiro, sua empresa poderá receber uma não conformidade.
A ISO 13485 foca na "Alta Direção". A RDC 665/2022, alinhada à legislação sanitária local, exige a figura do Responsável Técnico (RT) e do Representante da Gerência com responsabilidades legais e penais definidas. Isso impacta diretamente a estrutura organizacional (Art. 8º). A auditoria da ANVISA verificará se esse profissional tem autonomia real e independência para barrar a liberação de produtos, algo que em estruturas corporativas globais muitas vezes é diluído.
A correlação entre o Capítulo V da RDC 665 (Compras) e a Cláusula 7.4 da ISO é direta, mas a aplicação brasileira sobre "terceirização" é rigorosa. O detentor do registro no Brasil responde integralmente pela qualidade do fornecedor contratado. Isso significa que "confiar no certificado ISO do fornecedor" não é suficiente. A RDC exige critérios próprios de qualificação e monitoramento, muitas vezes demandando auditorias de segunda parte em fornecedores críticos.
Não utilize a matriz de correlação apenas para "ticar" requisitos. Utilize-a para identificar Gaps. O segredo da conformidade na RDC 665/2022 não está no que é igual à ISO, mas no que é diferente. No Grupo Vera Rosas, nossas auditorias utilizam uma metodologia crítica de análise e detalhamento, focada justamente nessas nuances que passam despercebidas em auditorias puramente baseadas na ISO.
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